Fevereiro de 2026
Tenho medo do tempo que passa enquanto eu me distraio



O não lugar é o espaço do “passageiro”. Do indivíduo que transita sem pertencer. Passa, mais um na multidão. Sem identidade, sem história, sem raízes. Anônimo. Sem autenticidade, sem pertencimento. Apressadamente passando pelo mundo contemporâneo sem vínculos, sem profundidade. Solitário.
O conceito de não lugar foi proposto em 1990 por Marc Augé, um antropólogo francês que descreveu esses espaços da “supermodernidade” que se caracterizam pela passagem, impessoalidade e falta de identidade, história ou vínculos. São locais onde as pessoas interagem com o ambiente de forma funcional e anônima, sem criar vínculos afetivos ou comunitários. Podemos citar aeroportos, rodovias ou salas de espera como exemplos.
É bem verdade que às vezes tudo o que queremos é desaparecer e gozar do descanso de sermos apenas mais um na multidão. De um espaço funcional e transitório. Mas se pararmos para pensar o não lugar tem se tornado uma cultura, um estilo de vida.
Vivemos submersos em um não lugar, carregamos o celular por todos os lados conectados ao macro e desconectados do aqui e do agora. Não são apenas as casas que parecem clínicas, nem os cômodos que são cópias sem identidade. São também os seres que se consolidam como indivíduos apáticos, amorfos, individualistas.
Gosto da teoria de Augé porque ele defende o lugar como espaço de ocupação: possuidor de história e identidade. Casas com cheiro de gente, cheias de imperfeições. Um objeto fora do lugar, uma mancha na parede. Com vida e identidade, sem serem réplicas do Pinterest.
Mas a nossa relação com o espaço começa na dinâmica que temos conosco e com a vida. Gente pode ser não-lugar. Urge criamos vínculos e raízes. Abraçar a imperfeição e se aceitar. Pertencer. Transitar com calma. Assumir a própria história, não querer viver a narrativa imposta ou a do outro. Conhecer reconhecer redescobrir quem somos. Ver o outro. Habitar a casa a pele a alma a vida e quem amamos.
Adorava quando o Papa Francisco dizia que não devemos transitar pela vida como nômades. Penso como o sussurro de uma prece: que a nossa vida não seja uma sala de espera. Que ela seja ao mesmo tempo raiz e voo. Que deixe rastro potente de entrega.



A felicidade é inalcançável quando desejada de forma absoluta e constante. O que existem são seus lampejos, são fagulhas e rastros. Momentos. Felicidade existe porque muitas vezes somos tristes e em outras tantas frustrados. Ela existe porque sofremos e perdemos.
Será que estamos certos do que nos faz felizes? Da época radiante em que estivemos profundamente encantados com a vida e entrelaçados em uma maré de bons sentimentos? É muito fácil confundir a felicidade com fantasia. Acreditar que ela não mora no agora. Supor felicidade acontece com mais frequência do que imaginamos. Há quem a confunda até mesmo com o caos.
Pensar que éramos mais felizes em situações que não existem mais é muitas vezes apostar no abismo. Assim como desejar aquelas que só existem nas nossas suposições. Algumas coisas só parecem melhores porque acabaram ou porque nunca existiram.
Não é incomum que olhando para nossas próprias vidas nos questionemos “e se eu tivesse escolhido outra coisa?” O destino e o tempo seriam outros ou eu terminaria aqui neste mesmo lugar? A vida seria diferente ou de uma forma ou de outra os caminhos do destino não mudariam? Vidas que não vivemos e as angústias que ficaram pelo caminho. Um luto pelas possibilidades.
Podemos confundir felicidade com êxtase. Com rompantes de sentimentos intensos. Em nossas ilusões tudo é romantizado porque a fantasia não conhece a decepção. Ou como bem disse Joan “porque o amor idealizado não paga as contas”. Enquanto é o amor real que suporta a gravidade da vida.
O amor maduro não se constrói com idealização de passado ou futuro. Ele é o abraço corajoso da realidade. O atravessar da monotonia e da rotina. A permanência. Estabilidade e recomeço. Uma sucessão de pequenas e grandes alegrias - e inúmeras dificuldades. Ele tem a vantagem e a desvantagem de existir tal como é.
‘Eternity’ revela o peso das nossas escolhas quando a efemeridade sai de cena. O tempo que não passa, que permanece eternamente. O que estaríamos dispostos a suportar? O que realmente desejaríamos?
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Veja bem, é preciso entender que a vida não espera. Ela pode mudar drasticamente enquanto a gente simplesmente se levanta da cadeira após um jantar na quinta-feira. As grandes alterações nos movem irremediavelmente para algum lugar. Preocupo-me mais com a estagnação dissimulada naquele cartel de desculpas que cada um de nós conhece bem.
Eu não sei quanto tempo demora para percebermos que a vida adulta é um tremendo esforço. Variável em sua medida tanto quanto diferentes são os indivíduos, suas fases e existência. Mas em algum momento é preciso cair em si e perceber que adultecer é tentar barganhar com o tempo.
Um tempo que realmente escorre por entre os dedos. Em contrapartida um tempo preenchido por diversas ocupações. Sem clareza e direção, sem consciência dos nossos valores e do que é inegociável para cada um de nós, podemos facilmente nos afastar do que realmente importa.
Sendo bem honesta: é impossível barganhar com o tempo. Ele sempre vence na sua passagem. Então além da luta habitual de cada dia é preciso fazer um esforço a mais para estar consciente e inteiro, para nutrir o essencial. Ter tempo para os amigos nunca será tão fácil quanto na adolescência, rezar parecerá não encaixar na agenda, brincar com os filhos parecerá inútil, visitar pessoas queridas parecerá impossível diante do cansaço e cuidar de si será como arrastar uma bola de ferro nos pés. Em contrapartida, a gente pode sempre arrumar mais um tempinho para o celular, para o trabalho ou qualquer outro interesse pessoal.
E este é o meu ponto. O que estou disposto a não ter ou a perder? O tempo, ele passa, ele segue, só de ida. Dá para ser flexível, claro. Sem catastrofismo, desespero ou aquela tendência dicotômica de ser 8 ou 80, o que mais precisamos é clareza, presença e intenção. O que me move? O que é importante para mim? No futuro, quando eu olhar para trás em que quero ter investido a minha vida?
Não adianta se ressentir da dose de esforço, do cansaço que nos solapa e parece roubar o precioso <preencha aqui o termo que quiser> que queremos reter para si. Tudo bem se divertir, descansar, distrair. Só não podemos esquecer que ser feliz também abarca renunciar.
Acho que vamos envelhecendo e aprendendo melhor a lidar com o tempo. Não sei dizer, tenho ficado preocupada com as novas gerações e a questão dos vínculos. Na verdade, nesse momento escrever está complicado. Há tantas coisas pairando na minha mente. Tenho pensado muito em <aproveitar> tudo. Estar inteira no espaço e no tempo do agora, na ação do momento, no riso ou no choro, na alegria ou na angústia, atendendo um paciente ou lavando um banheiro. Penso: não existe nada além do agora. E sigo: mas para existir o agora precisou existir o ontem. E o futuro depende de boas escolhas no presente. Não dá para desconectar o tempo como se fossem fatias. É preciso alinhavar o fio de ouro que conecta essas porções de um tempo que, em sua realidade, é eterno. É o meu tempo que acaba - ou transmuta.
Às vezes sinto saudades de mim, por isso gosto de ficar em solitude. Preciso, inclusive. Saber o que penso, tocar o que sinto, deixar o silêncio me desacelerar. Mas entendo que estar em paz consigo mesmo é uma dádiva. Não temer os próprios pensamentos, gostar da própria companhia. Sou grata. É Quaresma, mas antes deste tempo propício já sentia um chamado interno a purificar tantas coisas. Não como se estivessem manchadas, mas como se precisassem ser mais simples. Isso, simplificar. Não tenho todo o tempo do mundo, repito tranquila. No baile dos erros e acertos, busco ser mais assertiva. Clareza e direção: onde colocar minha atenção e minha energia? Não há super poder. Há apenas alguém tentando. Tentar acertar os alvos mas também me divertir com os pratinhos que caem.
É melhor assim. Desfrutar: aproveitar aquilo que estou “consumindo”. A presença de alguém, um filme, um livro. Esmiuçar. Sem a pressa do quantificar. Viver com menos, amar mais. Encontrar os lampejos de bondade do decorrer do dia para não sofrer de desesperança. Ter calma, ser gentil. Engraçado pensar que o tempo não volta e querer me demorar nas coisas. Eu acho que é um pouco disso: a paz começa na gentileza com que a gente sorri para o vizinho. Na oferta de si. Acho que um bom propósito é a santidade que se constrói no silêncio do altar interior. Ninguém sabe, ninguém vê - nem a gente. Objetivamente às vezes ela nem parece estar ali. Mas não sei dizer, ela é como um rio que corre em direção ao próximo.
Tenho medo da vida que passa enquanto me distraio. Não por querer reter a vida. Acho que estou me apaziguando mais com a ideia de finitude. Sinto que a vida é boa justamente porque em algum momento acaba. Ninguém suportaria viver aqui na terra para sempre - embora eu ame esse nosso planetinha. Inclusive, estou obcecada pelo céu noturno. Ainda temo a morte porque ela parece sim assustadora, mas temo mais essa despedida lenta do envelhecimento. Acho tão triste, tudo ser meio que uma despedida. Enfim, papo para outro dia. Fico feliz em poder envelhecer, acho um baita privilégio. Especialmente com a liberdade de não ter aquela pressão e cobrança de ser eternamente jovem.
Tenho medo da vida que passa porque sinto cada vez mais a sua gravidade. É estranho perceber que ela está irremediavelmente atada à uma leveza. Teoria: só é possível ser leve quando se sabe ser grave. Prefiro o termo grave ao termo peso, só para constar. Estou escrevendo e olhando pela janela. As folhas balançam lá fora e eu acho mesmo tudo tão lindo, nem parece que tive uma manhã tão difícil. É uma das peripécias e vantagens da vida: ela sempre muda. Os sentimentos passam, os recomeços nos são apresentados diariamente. Requer de nós a coragem.
Leituras
Hamlet, Shakespeare - uma releitura que me atravessou em cheio mais uma vez.
A cachorra, Pilar Quintana - devorei.
O século da solidão, Noreena Hertz
Filmes e séries
Eternity - uma comédia romântica leve, divertida e reflexiva
Meu amor, documentário Netflix - histórias de 6 casais com mais de 50 anos de casados. Rende tantas reflexões e é tão singelo!
A última carta de amor - emocionante!
Se você procura atendimento terapêutico, entre em contato com a Mônica no (27) 999614533.



demais!!
Este texto me atravessou profundamente. Quantas reflexões! O texto traz tantas questões que para mim, ao quase meio século de vida, ainda não consigo responder. Não sei as respostas.
Quanta sensibilidade e profundidade em suas palavras Rayhanne. Sempre!
Muito obrigada por me ajudar, por várias vias, a refletir e tentar encontrar as respostas que minha vida precisa neste momento.
Obrigada por partilhar sua escrita, que são completamente terapêuticas. ♥️