Janeiro de 2026
Um ponto de partida



“O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens; é tê-las feito.”
Desde o começo Stranger Things se mostrou como uma série conforto para mim. Apesar dos perigos, dos monstros e do suspense era evidente que seu arco não versava sobre a tragédia e o terror e sim sobre o poder do afeto. É aquela velha citação de Hemingway sobre não importar tanto a guerra e sim quem está nas trincheiras ao nosso lado.
Infância e adolescência são fases cruciais para o desenvolvimento de qualquer um de nós, seres humanos. As atravessamos mais fortes não quando faltam sombras e desafios, mas sim pela presença potente dos vínculos afetivos. O amor, o pertencimento, a confiança, são bases seguras de apego que nos fazem caminhar destemidos pelo mundo afora e enfrentar interiormente nossos próprios demônios.
Um dos maiores sentimentos que essa série evoca em mim é a nostalgia. Acredito que ela foi capaz de entrar em contato com a criança e adolescente que todos nós fomos um dia. Nos fez relembrar muitas coisas em nossas vidas, bem como nos fez despedir delas mais uma vez. Crescer é mesmo um luto, mas também é bom amadurecer.
A nostalgia não é para mim um sentimento de retorno, mas de constatação. Não é um desejo de voltar a uma época boa mas de reconhecer que é imprescindível subir os degraus. E cada um deles possui seu próprio valor e importância. Seu sabor especial. Emocionante é ver a vida seguindo seu fluxo.
Para mim Hawkins fecha as portas com um sabor agridoce. Sem uma luta épica ou uma grande teoria nerd, mas com a serenidade dos fins e dos recomeços. A lucidez das escolhas e de suas consequências. Talvez a lição mais importante seja que para salvar o mundo não precisamos de feitos extraordinários, mas de cuidar do nosso interior e dos nossos vínculos afetivos.
“When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we’ll see
No, I won’t be afraid
No, I won’t be afraid
Just as long as you stand, stand by me..”
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Eu cresci com o mesmo grupo de amigos. Em uma cidade pequenininha no interior da Bahia éramos os mesmos na escola, na natação, na catequese, na festa da empresa onde nossos pais trabalhavam. Desde pequenininhos até nossos 17 anos éramos ao melhor estilo Conte Comigo, Clube dos Cinco, Stranger Things. Dessa forma, assistir a essa série me transportou para aquela fase e tudo o que vivi de tão divertido, desafiador e uma boa sorte de “fins do mundo” ao lado daqueles companheiros. Deu tanto quentinho no coração.
Por isso, o olhar do Mike em uma das cenas finais me atravessou em cheio. A despedida. Nunca sabemos exatamente o dia em que mudaremos a fase da vida. Vamos simplesmente subindo os degraus. E nisso cabe o apaziguamento. É um luto… mas também é bom crescer.
Do lado de cá, na vida adulta, sabemos que os encontros de “reencontro” dificilmente vão acontecer. A distância, as responsabilidades, as diferenças… tudo isso vai afastando, deixando para depois. Os amigos da vida adulta são maravilhosos e únicos, mas eles nunca têm o mesmo sabor dos nossos amigos de infância e juventude. E isso não é um problema.
A natureza das amizades muda. Contudo, sempre teremos algo forte e em comum com essas pessoas que atravessaram a nossa vida e nos fizeram companhia nesse período significativo. O tempo pode passar, a distância pode nos fazer nunca mais vermo-nos. Mas nos lembraremos para sempre dos seus nomes e dos seus sorrisos, dos seus abraços que nos sustentaram enquanto nossos dentes caíam e nossos hormônios explodiam. Da presença constante e atenciosa. Da cumplicidade de quem nos conhecia e amava na mais pura essência.



Histórias de amigos que se tornam um grande amor povoam o cinema. Como não lembrar do clássico Harry e Sally que inaugurou o gênero e os subsequentes Um dia, De repente 30 e tantos outros.
O que também encanta em rom-coms assim é a leveza de um relacionamento em que há uma sintonia fina de alma. Um espaço de amizade antes de uma paixão incandescente. Uma conexão profunda. Este lugar seguro e aconchegante aonde somos convidados a ser quem somos da forma mais autêntica e amados precisamente assim.
Há diversos mitos que formam nosso imaginário do que é um grande amor. Fantasias tentadoras de completude, de felicidade constante, de um match perfeito. “De férias com você” vem para nos lembrar que o amor é, antes de tudo, trabalho e escolha. Mas muitas vezes podemos fugir dele ou equivocadamente fazer do amor algo que nos sirva para abafar o inconsciente.
Amar é lidar com a falta. Mitigar as diferenças. Não é tanto que opostos se atraem ou se distraem, como cantava o Teatro Mágico. É que nunca haverá alguém perfeito ou que cumpra o checklist do que <supomos> desejar. A realidade desfaz nossas ilusões e nos mostra, como bem percebeu Poppy, que nem sempre o que supomos desejar é o que de fato desejamos. Há uma diferença entre o que julgamos importante na teoria e o que de fato o é na prática.
O amor é calmo. Urgente é a paixão - que também é cega. Na torrente amorosa busca-se identificação, inclusive uma projeção narcísica. Cria-se uma idealização, um adequar-se, veem-se sinais. Quase tudo é como um mosaico fabricado pela imaginação e pelas sensações. Mas o amor requer a antítese. O desmaravilhamento. Ver com realismo.
O que realmente desejamos? Talvez seja mais fácil começar descobrindo o que não queremos. O inaceitável - e nao abrir mão. Estar com alguém é abraçar o que se revela como tal, não a imagem que queremos, o script que planejamos mentalmente. Amor não sobrevive de férias. Ele é construção diária. Uma dança entre a leveza e o peso.
Seja um amigo ou um amor, quando encontramos alguém em cujo ombro podemos descansar estamos certos de ter um tesouro na vida.



“… cedo ou tarde, o oceano do tempo nos devolve as lembranças que enterramos nele.”
‘Valor Sentimental’ escancara o drama de relações familiares que se constroem sobre as feridas não resolvidas. O simbolismo da casa que permanece de pé com sua rachadura fundamental é poético. Quais famílias não apresentam ao seu próprio modo suas trincas particulares? E quantas destas resistem ao tempo, sem rupturas, mas com novas nuances?
Um trauma geracional não é transmitido por via genética. São dores não resolvidas que se perpetuam geração após geração. Chagas antigas que geram novos traumas. Não há diálogo entre feridas abertas. Há sobrevivência, posturas defensivas, reatividade, ausências, violências, silêncio, tragédias. Um ciclo; até que alguém consiga rompê-lo.
É difícil, mas nem tudo dá para ser resolvido. O desgaste do tempo, as dores de cada um, as consequências enraizadas, os limites do inconsciente tornam a elaboração de um trauma uma arte. O primeiro passo é olhar de frente. Sair da posição de vítima não por não ser uma, mas por ser mais do que isso. Descobrir que no fundo todos somos vítimas de algo. Apaziguar a raiva e o ressentimento. Escancarar a verdade. Sentir o que dói.
Nesse sentido o filme traz com delicadeza o papel da restauração através da arte. Ela é precisamente este espaço em que podemos assumir o lugar do outro sem ser este alguém. A expressão artística nos faz mais humanos. Amplia. E cura porque permite extravasar e elaborar o que inunda ou sufoca por dentro.
Às vezes damos valor sentimental às nossas dores - mais do que ao que nos faz felizes. Nos apegamos, não queremos viver sem elas. Tememos o que seria da vida sem o contraditório conforto da dor conhecida. Não sabemos quem somos sem as chagas que nos afligem.
Nem todo sofrimento pode ser curado. Mas é possível aprender a conviver com ele. Descobrir o que há além. Atravessar o portal da dor. Permitir que a vida, aquilo que pulsa, tenha mais importância do que aquilo que nos fez sofrer. Não perpetuar o que nos consome está apenas em nossas mãos.



O cérebro é um órgão que trabalha fazendo previsões. Ele não interpreta o mundo de uma forma tão nova, ele prevê através dos dados que já obteve. Analisa a partir do nosso repertório de vida - o que vivemos e conhecemos. Por isso as experiências passadas continuam moldando nossas escolhas atuais enquanto não paramos para elaborá-las. Quantas portas fechamos por arrependimento, medo, vergonha, culpa? A jornada terapêutica não é sobre mudar o passado e sim sobre ressignificá-lo.
De tempos em tempos a vida nos leva para os mesmos conflitos, padrões, experiências, vazios. É o convite silencioso das nossas portas inconscientemente entreabertas. Na psicanálise assinalamos isso como repetição. O cenário muda mas continuamos repetindo a mesma cena enquanto não paramos para olhá-la com consciência. Para mudar o futuro é preciso fazer as pazes com o passado. Aceitar, perdoar, aprender. Dói, mas cura. Liberta.
Gosto muito de filmes road trip. A vida é mesmo uma viagem cheia de surpresas pelo caminho e que, no fundo, não fazemos ideia de onde vai dar. Venhamos e convenhamos, podemos fazer essa jornada sem nos maravilharmos com o caminho, cheios de pressa e piloto automático. Perderemos seus detalhes. Podemos atravessar sozinhos, mas em algum momento vamos descobrir que o bom da vida é viver acompanhados.
Fica mais fácil enfrentar nossos fantasmas quando temos alguém para segurar nossa mão. Se permitir ser amado é mais difícil do que amar. Entregar nossa vulnerabilidade e despir nossas máscaras, correr o risco de que alguém realmente goste da gente apesar da gente. Alguém que nos conheça verdadeiramente não é tanto sobre saber nosso sabor de sorvete preferido, mas sobre desvelar nossa essência, apreender nossos traços mais íntimos e profundos, conhecer nosso lado mais sombrio e escolher permanecer. A verdadeira conexão - e portanto, o amor - nasce da intimidade compartilhada e acolhida. Não que o amor nos conserte, mas ele é um grande impulso propulsor para transformação.
Autoconhecimento. A grande viagem que fazemos na vida é pelo lado de dentro.



Quando eu era criança adorava a história da Cachinhos Dourados. Eu lia e relia a narrativa daquela menina que tinha os cabelos como os meus e uma curiosidade aguçada semelhante à que ainda possuo. Descobri cedo que a arte era um espelho, uma experiência, um mergulho. Ela permitia que eu me conhecesse, que eu me expressasse. Que eu acessasse algo indizível e transcendente.
Em uma cultura que defende ferrenhamente os valores da produtividade, do desempenho, da quantidade, da pressa, do consumo… a arte parece inútil. Uma perda de tempo. Um para quê? Bom, porque é impossível viver sem ela e igualmente explicá-la, tentam transformá-la em algo objetivo. Uma competição, um pagamento, um elitismo. Mas ela segue irreverente, atravessando o tempo, o espaço, os esquemas…
Valor sentimental e especialmente Hamnet reafirmaram em mim a potência da experiência artística. Isso reverberou no meu interior quando Nora diz que ser atriz permite que ela seja outras pessoas e que isso a amplia; compreender outros mundos. Quando Agnes e William atravessam o luto através de uma composição teatral. Quando Gustav elabora a perda materna através do roteiro de um filme. Quando Nora compreende a si mesma e a seu pai neste mesmo exercício. Quando todo o povo sente a mesma dor que pertenceu ao casal em sua tragédia particular.
Em alguns momentos quando tendo a querer reprimir alguma emoção difícil em um filme ou livro, repito para mim mesma que é preciso me permitir sentir. Entregar. A arte me educa, me dá repertório. Ela me brinda com uma humanidade mais refinada e sensível. Ela atravessa a palavra e convida a sentir, a tocar o mistério. Àquilo que fica suspenso, um fio tênue e frágil que só pode ser apreendido na linguagem universal do sentir humano.
A arte incomoda. Desperta. Agarra-nos em um silêncio. Apesar da sua aparente inutilidade segue nos mantendo vivos justamente pela sua potência em nos atingir. Em suas múltiplas formas enlaça o intangível. Atravessa os séculos falando aos distintos corações.
Quando a religião se torna um tormento, quando a espiritualidade perde-se devido a inúmeros abusos, ainda é possível respirar e alcançar o transcendente através da arte. Não que ela resolva, mas ela move. Talvez a arte seja esse impulso vital que nos faz atravessar a vida “mantendo o coração aberto”.
Leituras
Amor nos tempos do cólera, Gabriel García - eu adoro o estilo do Gabo e adorei esse livro que é quase um tratado sobre o amor que atravessa o tempo, a idade e tantas desventuras.
Drácula, Bram Stoker - teria aproveitado melhor a leitura se não tivesse assistido aos filmes antes. Ainda assim, bom livro!
O verão que mudou minha vida, Jenny Han - Belly é chata demais. Não perca seu tempo. O seriado ficou bem melhor.
A metamorfose, Kafka - what a book! Ler este livro é viver uma experiência.
Filmes e séries
Stranger Things
The Pitt - que série! muito boa mesmo! Tenho a impressão de que estou trabalhando junto com eles no plantão haha
Valor sentimental - Gostei, achei interessante. Mas esperava mais, talvez porque fui ao cine com altas expectativas. Por isso tenho agora assistido às coisas sem saber tanto sobre elas. Experiência mais pura e autêntica.
A grande viagem da sua vida - melancólico, para refletir sobre a nossa jornada.
Amores à parte - uma comédia mais ou menos romântica, inteligente e com uma boa crítica social. Altas risadas!
Drácula, uma história de amor - não gostei muito dessa releitura; embora tenha apreciado a parte de redenção ficou parecendo meio incoerente com a constituição do personagem. Uma coisa legal nesse filme é que achei o Drácula mais falante, como o personagem do livro. Senti falta de desenvolverem mais os personagens. Meu preferido segue sendo o filme de 1992.
De férias com você - uma comédia romântica leve e divertida.
Meu demônio favorito - um dorama divertido para passar o tempo; um tipo de releitura de Drácula.
Sinners - what a movie!
Hamnet - ainda arrebatada. “O resto é silêncio”.
Se você procura atendimento terapêutico, entre em contato com a Mônica no (27) 999614533. Atualmente há algumas vagas disponíveis.



Belíssimo ponto de partida, Ray! 🙏🏾