O que sobra do amor
no mercado dos afetos
Eu entendo. Quem entrou naquela sala de cinema esperando que ‘Amores Materialistas’ fosse uma comédia romântica cheia de explosões emocionais realmente saiu criticando exacerbadamente o filme como se ele fosse uma grande porcaria. Às vezes o que estraga o filme não é o diretor, nem são os atores, mas a nossa expectativa elevada, a projeção que criamos. Muitas vezes consideramos um filme ruim não por uma análise do objeto, mas porque ele nos decepciona em múltiplos sentidos, ele falha no que esperamos dele.
Quando ouvi falar desse filme eu já sabia que ele não seria qualquer coisa. Assisti ‘Vidas Passadas’ e ele se tornou um dos meus filmes preferidos. A sensibilidade de Celine Song não é do tipo que esbarramos em qualquer esquina. Obviamente acredito que ela cometerá seus deslizes como diretora, afinal ninguém é perfeito e produzir arte é sempre um jogo de agrado e desagrado, justamente por ser tão pessoal - e nem por isso Song deixará de ser competente no que faz. Enfim… esse não é um texto sobre se o filme é bom ou ruim, mas uma análise sobre os relacionamentos modernos. Gostando ou não do filme, é inegável que ele levanta questões muito relevantes.
Se olharmos bem algumas produções como Casamento às Cegas, A pior pessoa do mundo e o boom de aplicativos de relacionamentos não é difícil perceber o que se compreende como ‘mercado dos afetos’. Diante de tantas possibilidades, a lógica que passa a reger o relacionar-se é a de um negócio. “O que eu ganho com isso?”. Se há tantas opções disponíveis, permanecer não é mais uma possibilidade. Algo melhor parece estar constantemente à espreita. Mudar, partir, descartar é a lógica de quem trata afeto de forma mercantil.
No mercado dos afetos, o outro frequentemente é tratado como um objeto de consumo, reduzido a um instrumento para satisfazer os desejos do eu. As pessoas passam a ocupar o lugar de produtos em uma prateleira. As relações são guiadas por cálculos sutis: “como isso me serve?”, “estou investindo mais do que recebo?”. No fundo não desejamos parceiros, mas produtos. Essa lógica esvazia aspectos essenciais como a alteridade e o verdadeiro encontro, pilares de qualquer vínculo autêntico.
Com frequência nos vemos avaliando possíveis parceiros, familiares ou amigos como se fossem investimentos: ponderamos qualidades, medimos riscos e projetamos “retornos” emocionais e sociais. Nesse processo o outro deixa de ser alguém com quem simplesmente compartilhamos afetos e passa a ser percebido como um conjunto de atributos cuja função seria potencializar nossos ganhos subjetivos. Dessa forma, a escolha de com quem nos relacionamos se transforma em uma espécie de checklist mental aonde buscamos o melhor custo-benefício, descartando rapidamente aquilo que não parece promissor ou que não entrega o “lucro” esperado.
Essa racionalização dos vínculos acaba tornando as relações mais utilitárias e menos autênticas. Anthony Giddens propõe em A Transformação da Intimidade que os laços amorosos contemporâneos se tornaram “vínculos baseados na busca de satisfação individual, mantidos enquanto proporcionam realização pessoal e negociados de forma racional, quase como contratos.”
Nesse sentido podemos recordar a cultura do encontro proposta pelo Papa Francisco em uma tentativa de semear uma reflexão sobre a necessidade de rever os padrões dos relacionamentos modernos. É preciso resgatar a abertura para o outro enquanto sujeito e não enquanto objeto de consumo. É um chamado a deslocar a lógica do “mercado” e permitir que o afeto se descole das expectativas egoístas.
Em ‘Amores materialistas’, o desenrolar do filme não se trata sobre um triângulo amoroso. Ambos os pretendentes se encaixavam dentro das expectativas de Lucy. Seu dilema era mais profundo. Ele abarcava o conflito entre dois desejos internos e suas consequências práticas. No centro está ela mesma. Sua preocupação real é com o que cada um pode oferecer a ela, especialmente em termos de estabilidade financeira.
No fundo, todos nós criamos fantasias de completude. Pensamos em um checklist, idealizamos alguém que vai nos completar. Mitos que criamos na expectativa de alcançar uma felicidade insuperável. Se eu tiver alguém com tais características, finalmente serei feliz, é o que pensamos. Na vida real, o ideal cai. O príncipe encantado tem sombras, a princesa tem falhas. E é nesse ponto que a escolha amorosa se revela: não é sobre encontrar o ideal, mas sobre suportar a verdade.
O amor, como qualquer outro produto na sociedade de consumo, é tratado como uma transação. A busca pelo par ideal é uma das armadilhas da modernidade: perfeição estética, renda e até a obsessão por uma compatibilidade infinita. Amor em tempos de aplicativos: estamos tentando como Frankenstein dar vida ao nosso próprio monstro? Reunindo uma lista de características como se amar alguém fosse montar um lego ou escolher um produto de catálogo? Claro, mesmo em relações autênticas fazemos um balanço geral do quanto essa relação é saudável e de como ela se encaixa em nossa vida, planos e etc. Mas o que são necessidades reais e o que são necessidades que criamos? O que realmente desejamos?
Amor sempre será um mistério. O amor deveria ser a condição inegociável de um relacionamento romântico. Mas será que o amor é sempre suficiente? Que ele resolve tantas outras questões? Na teoria tudo funciona muito bem. Temos várias concepções poéticas sobre o amor. Como Lucy, dizemos que é compartilhar uma vida, querer trocar as fraldas um do outro na velhice. Mas quando o assunto nos atinge de perto, tudo fica muito mais difícil. Diante do amor verdadeiro é preciso enfrentar as dificuldades, suportar os desconfortos, fazer escolhas difíceis, sofrer injustiças, perdoar, sentir fragilidade, insegurança e tanto mais que acompanha a aventura de construir uma vida a dois.
“Levar o amor a sério, sofrê-lo e aprendê-lo como um trabalho — é disso que os jovens precisam. As pessoas também interpretaram mal, como tantas outras coisas, o lugar do amor na vida; transformaram-no em um jogo e diversão, porque acreditavam que brincar e se divertir são mais felizes do que trabalhar; mas não há nada mais feliz do que trabalhar; e o amor, precisamente por ser a alegria suprema, só pode ser trabalho. Assim, quem ama deve tentar se comportar como se tivesse um ótimo trabalho.” (Rilke)
Em uma sociedade hiper conectada e repleta de interações, likes, matches e dates é contraditório e talvez paradoxal que encontremos a solidão como sentimento pungente e dilacerante em boa parte dos indivíduos. A angústia por não encontrar uma conexão verdadeira e genuína, mesmo com tanta “disponibilidade” é um sintoma do vazio. A necessidade de performar, o desespero por ser escolhido, os mitos a respeito do amor fragilizam o indivíduo. Em qualquer esfera, relacionar-se talvez seja a grande dificuldade do século.
Amor não é encontrar alguém que se encaixe perfeitamente nas nossas planilhas, mas alguém com quem possamos construir um caminho, mesmo entre falhas. Não tenho a presunção de definir a experiência de amar. Mas sei que é indispensável cada um se aprofundar nas próprias compreensões, fantasias e expectativas para amar de modo mais realista. O que é que buscamos? Como nos relacionamos com o que de fato encontramos? Sabemos amar fora das nossas projeções e idealizações?
De algum modo todos nós que crescemos em contato com redes sociais e lógica de performance e consumo acabamos afetados por ideias que nos conformam a um padrão disfuncional a respeito dos relacionamentos. Aparentemente o que as pessoas mais temem é a entrega. Porque o amor é mesmo misterioso, imperfeito, vulnerável e nada completo. Ele está sempre pouco ou muito fora do nosso controle. Talvez a grande lição seja essa: o amor é mais simples do que pensamos. Ele supera a necessidade de uma lógica absoluta, porque parte permanece mistério e sentimento. Ele não se centra somente em si mesmo, mas atua na construção de um nós. Ele é melhor do que os sonhos porque existe na realidade.





