Vínculo
a potência dos laços afetivos
‘‘Tudo é mais fácil na era virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade. “ (Zygmunt Bauman)
Na virtualidade muito se fala em conexão e em criar comunidade. Em contrapartida, boa parte dos meus pacientes ao longo dos últimos dois anos têm se queixado da falta de relacionamentos, do sentimento de solidão e da dificuldade em fazer um vínculo. Uma percepção latente da desconexão do indivíduo atualmente.
É inegável que há uma dificuldade em viver o coletivo. Embora os indivíduos passem tanto tempo hiper conectados nas redes sociais, na verdade há muito isolamento e individualismo. Enquanto caminho pelas ruas, nos olhares que cruzam os meus, nas pessoas em que defronto pelo caminho, nas conversas entrecortadas, no meu trabalho, nas partilhas que escuto, me deparo com a mesma sede de encontro.
O mesmo vazio que caudaloso atinge. Que quase imperceptível sussurra e faz-se ouvir. Que se esconde em roupagens distintas. Quase não se nota. Não se sabe dar nome, mas está ali. Tenta fugaz se saciar, frustra-se. Manifesta-se furtivamente através de desejos inconscientes. Busca, sem saber o quê. Sofre, sem saber o porquê.
É paradoxal sermos a era da hiper conexão enquanto padecemos notoriamente de solidão. Arquejamos dia após dia a ausência de conexões vitais, profundas e reais. Há carência de presença verdadeira. Somos seres sociais, relacionais e ansiamos o olhar, a voz, o gesto. O toque, o abraço, o cheiro. Os risos, as lágrimas, as distintas emoções. O vínculo. O estado de presença.
Mesmo muitas vezes tentando viver de maneira líquida e superficial, ontologicamente todos ansiamos por substância. A experiência do corpo. A atenção plena. A dedicação. A profundidade. A transcendência. Desejamos apaziguar a solidão existencial e inextinguível com o entrelaçar de boas companhias.
Em uma vida tão apressada nos habituamos ao desencontro. Alimentamos a solidão como monstrinho de estimação. As mensagens instantâneas substituem parcamente o contato entre epidermes. Desaprendemos a olhar nos olhos, acostumados a encarar as telas. Perdemos a arte de interpretar o outro, acostumados à expressão linear e automática da comunicação virtual. Quase nunca temos tempo para estar integral e plenamente com quem amamos. Descartamos pessoas como se fossem objetos. A nossa atenção vive sendo sequestrada.
Tenho para mim que precisamos recuperar a cultura do encontro. Da manutenção do relacionamento, da comunicação. Da dedicação e do afeto. Do vínculo. Fazer laços e permanecer. Descobrir a força em ser vulnerável. Orientar vetorialmente para a profundidade. Substituir quantidade por qualidade. Com delicadeza, costurar artesanalmente e humanizar novamente as relações. Isso é fonte de cura.
Em um mundo hiperconectado há cada vez mais desconexão afetiva. As relações são voláteis, líquidas, superficiais. Perde-se a conquista, esse processo lento e cheio de esforço que constrói uma relação sólida. Tudo é tão urgente quanto volátil. Tão fácil quanto substituível. Vidas vazias, seres isolados. Rodeados por tantos, mas no fundo, sozinhos.
Nós podemos ter muitas coisas como sucesso, dinheiro, prestígio, bens, fama, pessoas ao nosso redor. Contudo, se não temos vínculos verdadeiros, eu acredito que somos muito pobres. E que, talvez no fundo, não tenhamos verdadeiramente nada.
Quando a vida nos arrasa no mais íntimo e profundo, são as relações que cultivamos que nos sustentam. Quando nos deparamos com o lado mais sombrio de nós mesmos, são os vínculos que nos mantém aquecidos e com esperança. Quando temos uma vida feliz e leve, é porque construímos relações especiais.
Se você se perguntar… quando a vida te desmorona, quem é que te ampara? Na solidão, nos dias difíceis, em quem busca refúgio? Quem te socorre nos momentos de crise? Quem não te abandona mesmo no caos, na briga, na mágoa, na frustração? Quem fica mesmo tendo motivos para partir? Quando o sofrimento vem, para quem você telefona? Com quem você chora? Quem te acalma no desespero e na desesperança? Na dor, quem te faz companhia? Quem tem medo de te perder? Na alegria, a quem você quer contar as notícias? Quem celebra contigo? Com quem você pode ser você mesmo, sem filtros? Com quem você se diverte da forma mais simples? Quem te coloca como prioridade? A quem você se dedica a dar tudo isso?
Não importa muito onde estivermos ou o que façamos, são as pessoas ao nosso redor que fazem a vida ser especial. Somos nós que enchemos de detalhes coloridos a vida de quem nos rodeia. São os vínculos que nos enraízam e através deles somos capazes de florescer e frutificar.
Construir relações significativas não é fácil. Leva tempo, exige sacrifício e esforço. Precisa de vulnerabilidade escancarada. Gasta tempo, necessita cuidado. Mas na vida poucas coisas importam mais do que quem caminha ao nosso lado e segura a nossa mão.




Amei a reflexão, Ray